Há bases para utilização de terapias complementares na prática psicológica?
- Andreza Castro

- 27 de nov. de 2018
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Nota: Este ensaio foi originalmente escrito como avaliação para a disciplina de Controvérsias na Psicologia do curso de Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Introdução
Para entendermos a controvérsia sobre a integração das terapias holísticas na prática psicológica terapêutica, devemos primeiramente compreender o que são essas práticas e como elas ganharam tanto espaço e adeptos nas ultimas décadas.
A partir da década de 1960, surgiu nos EUA um movimento libertário de contestação, denominado contracultura, cuja característica principal era contestar comportamentos da cultura dominante de forma radical, porém pacífica, representava principalmente a insatisfação da população com os valores capitalistas que enalteciam a individualidade, a alta tecnologia e o ambiente frígido e puramente físico proporcionado pela ciência em varias áreas, como a área da saúde por exemplo.
Esse movimento se espalhou por diversos países e setores da sociedade e influenciou toda uma geração com suas ideias que valorizavam a simplicidade, o amor, a natureza, a liberdade de espírito, a aproximação das religiões e valores orientais e hábitos como vegetarianismo.
No contexto desse movimento – não somente no âmbito da psicologia, mas, no campo da medicina como um todo – houve um aumento persistente e significativo na procura de práticas denominadas como terapias alternativas em vários setores da população civil e em instituições de serviços públicos de saúde; aumento esse que pode ser explicado pela intensa insatisfação da visão predominantemente capitalista onde impera os convênios de saúde que só visam o lucro pouco se importando com o paciente como um sujeito individual carente de atendimento humanizado.
As terapias alternativas são sistemas médicos complexos e recursos terapêuticos que não são utilizadas pela medicina tradicional ocidental ou pela psicologia científica. Grande parte dessas práticas não possui comprovação científica e se caracterizam por descender de tradições milenares orientais, tais como a chinesa e indiana, pautadas no equilíbrio das energias mentais ou espirituais, importante ressaltar que o significado de espiritual aqui não está relacionado a religiões e sim ao corpo não físico do ser humano, e na natureza.
Como não possuem comprovação científica, surgiu o debate sobre a eficiência e a eficácia dessas práticas terapêuticas. Embora tal debate tenha levado a concepção que essas terapias não possuem resultados curativos significativos de acordo com a ciência, no cotidiano a procura por essas terapias têm aumentando cada vez mais, inclusive no meio universitário. De acordo com Martynetz e Serbena (2012), este interesse pelas terapias holísticas é bastante presente no campo psicológico, pois, entre a formação científica e a visão integrativa de homem há uma forte tensão prática e epistemológica.
Desenvolvimento
Para a OMS – Organização Mundial da Saúde – a definição de saúde não está ligada somente a ausência de sintomas de caráter patológico, está relacionada à saúde integral, ou seja, que envolve o bem-estar físico, psicológico e social. Está definição, de acordo com Nelson Felice de Barros (citado por Moraes, 2016), rompeu com a hegemonia da racionalidade médica científica, que está centrada principalmente na doença em si e não leva em consideração a subjetividade do paciente, e coincidiu com a insatisfação da população mundial com as terapias tradicionais e com o movimento de contracultura impulsionando ainda mais as terapias alternativas, que se centram principalmente em ver o paciente como um conjunto de experiências, vivências, ou seja, reserva um olhar não somente para o sintoma a ser tratado, mas também, para as situações que o originaram.
Com a valorização da integração entre corpo e mente uma das áreas que mais foram afetadas pela preocupação de uma saúde mais pluralizada foi a Psicologia tendo em vista que está é uma área extremamente adjunta à visão de homem como um ser subjetivo e multifacetado. A psicologia tida como científica incorpora a lógica empírica e racional na construção de seu saber, partindo desse pressuposto Gauer, Souza, Molin e Gomes (1997), compreendem que as terapias holísticas são alternativas a psicologia, pois, objetiva resolver questões tradicionalmente relacionadas à prática psicológica utilizando meios que não se relacionam intimamente com a ciência, tais meios envolvem principalmente a racionalidade cosmológica baseada no vitalismo.
Um dos pontos principais a cerca da controvérsia das terapias alternativas é a questão da fundamentação científica, embora algumas tenham uma pequena base cientifica tais como a acupuntura e a meditação que contam com pesquisas neurocientificas que validam seus efeitos, outras terapias como a homeopatia e antroposofia não possuem base científica convencional para validar seus resultados, a constatação de sua eficácia depende unicamente de autorrelatos de pacientes que foram submetidos a elas.
Outra questão importante a ser observada é em relação ao dilema presente acerca da questão da funcionalidade. Alguns acreditam que as práticas holísticas resultam em uma cura enquanto outros apoiam a ideia de que elas não possuem um efeito significativo, resultando assim em um efeito placebo e, portanto, seria uma perca de tempo recorrer a elas. Também há os que defendem que mesmo que tal efeito não seja significativo para a ciência tradicional, a interpretação positiva do paciente em relação àquela terapia tem um certo efeito positivo em sua recuperação. Consoantemente, “o impasse advém da dificuldade de comprovar e generalizar para todas as pessoas os efeitos benéficos dos métodos alternativos complementares, uma vez que o envolvimento subjetivo do doente no processo de cura é inerente a esses saberes. Aliás, é justamente nos aspectos subjetivos que reside sua eficácia” (Moraes, 2016, p.7).
Como já mencionado anteriormente, a mente contribui intimamente no tratamento de problemas psicológicos bem como o de dores agudas e crônicas e as terapias alternativas buscam o equilíbrio entre esses problemas e uma qualidade de vida melhor; esses tratamentos atuam de forma complementar com as terapias alopáticas e buscam reduzir o consumo de medicamentos priorizando, principalmente, a prevenção e o tratamento integrativo.
Em um estudo publicado em 2016 no Journal of the American Medical Association (citado em Honorato, 2017), a técnica de redução do estresse com base na atenção plena e terapia cognitiva-comportamental provaram ser mais efetivas do que cuidados tradicionais no tratamento de dor lombar. Em outro estudo realizado no EUA e mencionado pela Rede Bandeirantes na edição noturna do Jornal da Band do dia 22 de novembro de 2018, foi comprovado que o tratamento com meditação transcendental melhorou significativamente o índice de estresse de militares que sofrem com o estresse pós-traumático. Como referido por Maria Belén (citado em Honorato, 2017), "As práticas integrativas preparam o organismo e a mente das pessoas para mostrar a importância delas mesmas no entorno”.
Também há o tópico da relação custo-benefício desse tipo de terapia, nas últimas décadas a área da saúde como um todo vem se tornando cada vez mais cara correspondente ao aumento da tecnologia empregada e da privatização, a medicina alopática, por exemplo, é extremamente dependente da indústria farmacêutica. Por este motivo uma maior qualidade de vida torna-se cada vez mais inacessível para as populações mais pobres, consoantemente com Luz (citado por Moraes, 2016, p. 4), “Além de satisfazer as necessidades preventivas, as medicinas alternativas e tradicionais utilizam recursos artesanais e pouco custosos, ao mesmo temo em que produzem efeitos positivos para pequenos mal estares psicossomáticos”.
Tarantino (2008) mostrou que devemos levar em consideração que as terapias alternativas também apresentam efeitos adversos; o excesso de substâncias como ervas, metais e minerais em remédio ayurvédicos podem causar lesões neurológicas, além disso, produtos a base de ervas, tais como a gingko biloba e o ginseng coreano, aumentam a ação de drogas anticoagulantes, o que pode gerar uma hemorragia em uma cirurgia por exemplo. No Brasil alguns especialistas, como Paulo de Tarso Lima, trabalham para divulgar os conhecimentos acerca das interações, efeitos e limites das terapias alternativas.
Outro aspecto bastante importante acerca das terapias alternativas é o próprio campo da psicologia que carece de consenso em várias áreas, dentre elas uma das mais importantes: seu objeto de estudo. Esses desencontros estendem-se à psicoterapia convencional, que é tida como científica, e por sua vez, de forma ainda mais explícita, as terapias alternativas. Conforme Tavares (2003), à medida que o mercado terapêutico das terapias alternativas ganha mais adeptos, cresce com ele a preocupação sobre a legitimidade social dessas, o que culmina diferentes posicionamentos dos órgãos profissionais representativos, como foi o caso dos Conselhos Regionais e Federais de Psicologia.
Como as delimitações das práticas terapêuticas nunca foram bem definidas no Brasil houve uma complexificação no cenário terapêutico brasileiro e nas fronteiras da legitimidade social, gerando intensos debates, principalmente no campo da psicologia, sobre a emergência de novas práticas terapêuticas, seus limites e competências devido ao acolhimento do movimento de contracultura e seus ideais alternativos.
A reação inicial do conselho de psicologia foi tratar o assunto como exterior à psicologia, essas práticas alternativas emergentes eram vistas como algo forasteiro que não deveria ser confundido com as práticas e o saber psicológico, entretanto, devido a popularidade e adesão cada vez mais alta, inclusive entre psicólogos, o conselho de psicologia modificou sua posição de modo a se adaptar aos estudos e utilização dessas terapias. De acordo com Tavares (2003), essa discordância entre os conselhos de psicologia, que tinham uma resistência em reconhecer a importância da discussão sobre as terapias alternativas, e os psicólogos, que aspiravam discutir a flexibilização dos parâmetros de legitimidade que definam as fronteiras entre a psicologia e outros saberes psi, ocasionou uma tensão e consequentemente um debate interno que deixou os estudos científicos dessas terapias em segundo plano.
Conclusão
A questão das terapias alternativas em relação a prática psicológica possuem lados de argumentação que advém da incompatibilidade entre o campo científico baseado na racionalidade científica positivista e o campo do vitalismo. Como citado anteriormente nesse ensaio, os maiores obstáculos para a aceitação dessas terapias holísticas é a questão da fundamentação científica, a eficácia da funcionalidade e os efeitos adversos que tal prática conduz.
Em alguns casos, as terapias holísticas são vistas como tratamentos alternativos em detrimento aos tratamentos com custos mais elevados. E apesar de se basearem em parte na simplicidade e na natureza, essas terapias não estão livres de efeitos adversos.
A respeito da fundamentação científica, embora algumas delas tenham uma pequena base cientifica para se apoiar, uma grande porção das terapias holísticas ainda não foram estudadas devidamente para obter validação de seu uso nas práticas psicológicas. O debate dicotômico em relação às posturas dos psicólogos e do conselho de psicologia afastou de certa forma a discussão acerca dos estudos científicos dessas terapias, embora essa tenha sido retomada com a nova postura adaptativa dos conselhos.
Apesar da carência de comprovação científica tradicional, algumas terapias holísticas ainda trazem resultados positivos e benefícios para a saúde de seus usuários e estando disponíveis para a população geral se faz importante a contínua divulgação de informações sobre os riscos e contraindicações. Também é importante esclarecer que as terapias holísticas possuem caráter complementar, portanto, não substituem as terapias convencionais.
Referências
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